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25 Setembro 2020 | Vista 4469 vezes |

PRAIA E A TEMPESTADE

Na linguagem popular, o nosso país foi “bafejado” pela grande sorte de ter beneficiado de uma chuva abundante, porém, violenta e agressiva. Com efeito, a chuva só pode ser uma grande bênção para quem vinha esperando, durante cerca de 3 anos, por chuvas, no mínimo, suficientes, para ver as cheias a encher as suas represas vazias e usufruir de um ano agrícola razoável. Contudo, a natureza tem-se revelado connosco, na maioria das vezes, avara, cada vez mais imprevisível e, de quando em vez, excedendo os limites. Foi o que aconteceu na cidade da Praia, nos dias 11, 12 e 13 deste mês. Fica-se com a impressão de que a natureza, envergonhada e arrependida pelas omissões e pelos atrasos, quis compensar de uma só vez as faltas acumuladas durante 3 anos. Mas, assim, não dá!

Como em tudo na vida, também se aprende com desgraças coletivas ou pessoais e delas se pode tirar lições valiosas. As coisas não são fruto do azar. Têm causas. Cabe-nos descobrir, humilde e honestamente, essas causas. Em primeiro lugar, a natureza não aceita ser agredida gratuitamente. Há sempre um preço a pagar pela agressão ou pelo desrespeito das normas convenientes no relacionamento com o meio ambiente. O Homem tem sido o grande responsável pelo desregulamento da natureza. Então, vamos tentar descobrir a ação nociva destes Homens e atores concretos: os residentes e os gestores, formais e informais do território da cidade da Praia.

As chuvas, embora aleatórias, são uma das constantes da natureza. O certo é que, em demasia ou insuficiente, chove quase sempre. As cheias, violentas ou fracas, são uma outra constante da natureza. Correm mais vezes do que não correm. Além disso, existe um território sobre o qual esses fenómenos naturais ocorrem e exercem a sua ação, proveitosa ou destrutiva. Pela sua ação de modelação do espaço físico, as chuvas e as cheias têm escoado por achadas, cutelos e ribeiras, criando grandes e pequenas veias de circulação. Escavaram vários caminhos de circulação em direção ao litoral e ao mar. Pela lei da física, estão obrigadas a varrer ou a contornar os obstáculos colocados no caminho da sua viagem em direcção ao mar, que nunca foi uma viagem pacífica e serena, provocando quase sempre estragos. Têm sido percursos geralmente tumultuosos que desafiam a boa gestão do território e dos cursos da água.

Parece-me que qualquer resposta duradoura e segura aos problemas colocados pela última tempestade que se abateu sobre a cidade da Praia vai exigir, a curto prazo, o reordenamento adequado dos espaços urbanos e periurbanos, porém, integrados num programa maior de médio-prazo de desenvolvimento urbano e, igualmente, habitacional e social. Requereria, ainda, para uma maior garantia, o tratamento a montante e o ordenamento do território concelhio da Praia e, parcialmente, do território fronteiriço do concelho de S. Domingos, no quadro de um programa de desenvolvimento rural e de correção torrencial e de combate à erosão dos solos, o que reduziria o volume dos detritos transportados e diminuiria a velocidade e a agressividade das correntes. Mas, antes de prosseguir, peço desculpas por esta vaidade muito humana de querer meter a foice em seara alheia. Não restam dúvidas de que a Covid-19 e a tempestade ocorrida recentemente no país têm sido maldosos e indiscretos e expuseram de forma direta e crua as falhas, as omissões e as grandes carências da gestão urbana em quase todas as cidades do país, assim como, o muito que falta por fazer para garantir uma boa utilização do solo urbano e a afetação e distribuição mais equitativa de lotes para habitação, sem discriminação dos menos afortunados. A isso se deve juntar a evidência da extrema precariedade das condições de vida e de habitação de uma franja significativa da população urbana. Em compensação, registei com muito agrado o surgimento espontâneo de manifestações de preocupação e de solidariedade, vindas de associações cívicas e pessoas simples e generosas, para com as vítimas das cheias. Está-se perante uma iniciativa solidária muito louvável que constitui uma via eficiente e responsabilizadora para estimular a solidariedade social e compensar as carências de políticas públicas.

Não foi preciso um esforço especial para fazer as constatações a que me referi. Vi as imagens e fui interpelado, sentado no sofá da minha saleta de televisão. Fiquei surpreendido com a gravidade do que vi. As perguntas que me vieram à mente foram: de onde saiu tanta água? Por onde passou tanta água? A enormidade das destruições e das perdas individuais também me chocou bastante. Surgiram a seguir outras interrogações: o que não esteve bem? Onde se falhou? São interpelações que têm vindo a mexer certamente com a mente da maioria dos cidadãos que pedem explicações.

A complexidade e a dimensão dos problemas e dos desafios revelados por aquelas chuvadas requerem uma visão objetiva e o conhecimento aprofundado da situação concreta e dos fatores que permitiram ou facilitaram aqueles acontecimentos calamitosos. Requerem o domínio técnico e sociológico, o mais completo quanto possível, da situação e dos factos materiais e humanos e, também, o equacionamento integrado de soluções apropriadas que compreendam quer aspectos territoriais, quer aspetos humanos e habitacionais. Por exemplo, uma solução duradoura para a cidade da Praia e o seu território contíguo exigirá, certamente, um programa transversal e integrado de médio-prazo e pede investimentos avultados. Não se conforma com improvisações casuais.

Gostaria, antes de terminar, de me desincumbir dos sentimentos que originaram estas reflexões: a manifestação da minha solidariedade com a população da nossa capital e, sobretudo, com os que estiveram em risco ou que viram os frutos de vários anos de labuta perseverante a serem destruídos ou consumidos pelas cheias que atravessaram os seus locais de residência ou de trabalho. A todos, a minha solidariedade e simpatia!

Deste meu solilóquio, pareceu-me que o mundo, incluindo o nosso pequeno país, está perante um enorme desafio e a caminhar em direção a situações de muito maior complexidade e portadoras de elevados riscos e irá, ou começou já a enfrentar problemas cada vez mais complexos e assustadores, que exigem lideranças políticas e sociais cada vez mais lúcidas, comprometidas e mais bem preparadas e empenhadas na defesa dos interesses e valores universais e, também, do futuro sustentável do planeta e da humanidade, que significam a equidade e a proteção da vida humana e dos valores e interesses fundamentais e comuns a todos nós, em ausência dos quais o mundo perderia a sua grandeza e todo o sentido da sua existência.

Fraternas saudações a todos! Praia, 25-09-2020

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